Eu nunca fui uma pessoa de confiar facilmente nos outros.
Mas tinha uma amiga em quem eu confiava de verdade. A gente se conhecia há mais de quinze anos. Eu considerava ela minha melhor amiga e contava coisas muito pessoais, coisas que eu não falava para mais ninguém.
Contei quando meu casamento passou pela pior fase e eu pensei em me separar. Contei da dívida que escondi do meu marido durante meses. Contei até da mágoa que eu carrego da minha mãe desde criança.
Até que, num almoço de família, minha cunhada comentou, rindo, que “pelo menos agora o casamento de vocês está melhor”.
Eu fiquei sem reação.
Ninguém da minha família sabia daquilo.
Nas semanas seguintes vieram outras coisas.
Uma colega do trabalho perguntou se eu já tinha resolvido “aquele problema do dinheiro”. Uma vizinha falou da minha mãe como se conhecesse a história toda.
Só uma pessoa sabia daquilo tudo.
Quando eu perguntei para ela, ela nem tentou negar. Disse que só tinha comentado com algumas pessoas, que não achou que fosse nada demais.
O pior nem foi saber que estavam falando de mim. Foi perceber que tudo aquilo que eu tinha contado porque me sentia segura com ela deixou de ser só nosso.
Eu me afastei.
Não teve briga, não teve escândalo. Eu só parei de ligar, parei de responder, e ela também não insistiu.
Depois disso, alguma coisa mudou em mim.
Hoje eu me dou bem com várias pessoas. Faço parte de um grupo, converso, rio, sei que se eu precisar provavelmente vão estar ali. Mas não consigo olhar para nenhuma delas e pensar: “é com essa pessoa que eu posso falar sobre tudo”.
Quando alguém começa a se aproximar demais, eu mesma acabo criando distância.
Uma parte de mim quer ter alguém para contar as coisas simples do dia, falar quando estou triste, quando alguma coisa dá errado ou simplesmente conversar sem pensar duas vezes antes de cada frase.
Mas outra parte fica sempre esperando que aconteça a mesma coisa de novo.
Às vezes eu olho em volta e parece que todo mundo tem alguém com quem consegue se abrir de verdade.
E eu estou sempre rodeada de pessoas, mas continuo me sentindo sozinha.
Eu queria voltar a confiar em alguém.
Só não sei mais como.


