Menti para o meu namorado sobre o aluguel do apartamento que é meu

Quando decidimos morar juntos, eu já tinha onde morar. Minha avó me deixou um apartamento pequeno, de dois quartos, quitado. Era a primeira coisa realmente minha, e eu tinha um medo que nunca contei para ninguém: que ele se acostumasse a não pagar moradia e deixasse tudo nas minhas costas.

Eu vi minha mãe sustentar a casa sozinha durante anos. Não queria repetir isso.

Por isso, quando ele perguntou de quem era o apartamento, eu disse que era da minha tia. Disse que ela alugava para a gente por mil e seiscentos reais, um preço de família, e que dava para dividir meio a meio.

Ele achou justo. No começo de cada mês, me mandava oitocentos reais por Pix. Eu dizia que juntava com a minha parte e pagava a minha tia. Luz, internet e mercado a gente dividia à parte, como qualquer casal.

Foi assim por um ano e meio.

No começo, eu pensava que ia contar logo. Depois fui deixando. Ele nunca reclamou do valor, nunca atrasou, e cada mês que passava tornava a verdade mais difícil de explicar.

Quando começamos a planejar o casamento, ele passou a fazer hora extra. Saía cedo, voltava tarde e dizia que era para a gente casar sem dívida. Eu via ele chegar exausto, sentar no sofá ainda de uniforme e dormir antes do jantar. Eu sabia que pelo menos oitocentos reais daquele cansaço podiam ficar com ele. E não conseguia contar.

Num domingo, almoçamos na casa da minha mãe. Falando dos planos, ele comentou que a máquina de lavar tinha quebrado e que estávamos esperando o décimo terceiro para comprar outra.

Minha mãe estranhou: “Mas vocês nem pagam aluguel. Pra onde está indo esse dinheiro?”

A mesa ficou em silêncio. Ele não respondeu a ela. Ficou olhando para mim.

Em casa, contei tudo.

Contei que o apartamento nunca foi da minha tia. Que eu tinha aberto uma conta só para guardar o dinheiro do aluguel. Que todo mês colocava lá os oitocentos dele e mais oitocentos meus, pensando na entrada de uma casa nossa, maior, para quando a gente casasse. Mostrei o saldo: vinte e oito mil e oitocentos reais. Nenhum real tinha sido gasto.

Só que a conta estava apenas no meu nome.

Eu achei que, mostrando o dinheiro guardado, ele ia entender que eu não tinha tirado nada dele. Não foi o que aconteceu. Ele disse que eu tinha decidido sozinha o que fazer com o dinheiro dele. Que ele trabalhou de madrugada achando que estava pagando a casa da minha tia, enquanto eu montava um plano do qual ele nem sabia.

Ele pediu o dinheiro dele de volta, os catorze mil e quatrocentos. E suspendeu os planos do casamento.

Eu aceitei devolver. Ele tem razão sobre a mentira, e eu sei disso. Mas uma coisa continua me incomodando. Se a gente continuar junto, ele vai morar num apartamento que é meu, sem custo de moradia nenhum. Eu quero combinar uma contribuição, agora que ele sabe de tudo. Não o valor de um aluguel inventado. Algo que a gente decida junto, às claras.

Ele diz que não consegue pensar nisso agora. Minha mãe acha que eu deveria deixar ele morar sem pagar por um tempo, para compensar. Eu sinto que, se fizer isso, volto exatamente ao medo do começo.

Eu errei em mentir. Mas seria errado pedir essa contribuição depois de devolver o dinheiro?

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